Ai meu Deus, o que eu fiz.
Eu vi tudo vermelho. Sangue. Comecei a gritar desesperadamente. Agonia. Não, o sangue não era meu. No lugar aonde deveria estar minha madrasta, havia só sangue e destroços. Meu pai saiu de casa assustado e perguntou o que havia acontecido, e no meio da multidão ele viu a mesma cena que eu. Ele ficou paralisado, depois, caiu de joelhos no chão. Era demais pra mim. Depois disso, a única coisa que vi foi um bombeiro me levando para dentro da casa, e tentando fazer com que eu me controlasse. A multidão aumentava.
O caixão foi lacrado porque o corpo dela havia ficado muito desfigurado. Todos estavam de preto, e eu com o vestido que ela havia me dado no natal. Era alegre, assim como ela. Mas o enterro não. O enterro parecia cinza, assim como os dias que se seguiram. A cada dia que passava, eu sentia um clima mais triste e melancólico, e tudo o que havia de feliz em mim passava por entre os meus dedos como areia fina, que por mais que você tente, você não consegue manter segura em suas mãos. Meu pai passou a comer novamente comida enlatada. Ele não jogava mais pôker, nem saía. Quando eu ia á escola, era como se eu estivesse abaixo de refletores. Todos olhavam e mesmo que não disessem, eu sabia que eles achavam que a culpa havia sido minha. Sinceramente, eu também acho.
Um dia eu simplesmente não estava mais aguentando. Saí de casa e estava tudo frio. Havia uma neblina espessa, por mais que a previsão do tempo fosse para um agradável dia ensolarado. Cheguei ao portão do cemetério e caminhei até a visão melancólica do túmulo de Érica.
O cemitério estava silencioso a não ser pelos passos ao longe do zelador. A neblina me impedia de ver aonde ele estava caminhando. Me sentei na lateral da sepultura e fiquei observando o rosto doce de Érica na foto. Ela usava um baton cor-de-rosa que eu havia lhe dado de presente no seu aniversário, que combinava com seu vestido florido. Coloquei o rosto entre as mãos e as lembranças do acidente invadiram a minha mente. Eu não queria me lembrar. Fechei os olhos com força, e de repente ouvi um barulho. Me virei para trás mas o cemitério estava deserto. Eu não ouvia mais os passos do zelador. O sorriso de Érica sempre me acalmava, então me virei para olhá-la novamente, e então percebi detalhes que não estavam na foto antes. Érica não estava sorrindo. A foto estava sem vida, sem cor, como se tivesse sido desbotada com o tempo. Seu sorriso não estava alegre. Na verdade ela não sorria. Tive a impressão de que seus olhos me encaravam, como não faziam antes. Seu rosto estava vazio, mas havia uma pontinha de ameaça nas suas feições jovens. Ela concerteza não parecia a mesma. Comecei a ouvir passos, então ouvi uma risada conhecida.
"Oi querida." - disse Érica.
Nenhum comentário:
Postar um comentário