Eu não queria abrir os olhos porque eu sabia que, assim como a luz, as lembranças voltariam.
Quantas vezes após a morte da minha mãe eu entrei nesse quarto após um pesadelo, procurando colo, e depois de ver o quarto vazio eu me lembrava que ela não estava mais comigo.
Eu conhecia cada canto daquele quarto.
E mesmo de olhos fechados, eu tinha noção do local exato de cada um dos objetos, e mesmo depois de tanto tempo, as lágrimas ainda regressavam aos meus olhos.
Mas eu não sabia se eu chorava por sentir falta da minha mãe ou por ser o motivo do que havia acontecido.
Minha mãe morreu em um acidente trágico quando eu tinha 4 anos, e desde então meu pai não havia estado com outra mulher a não ser Érica, minha madrasta.
Sou filha única, mas Érica tinha uma filha, Roberta, que mora e estuda no exterior, e eles queriam que eu fosse estudar fora, mas eu me neguei a ir. Acho que posso dizer que foi mais ou menos por esse motivo que a briga havia começado.
Eu não queria ser a causa das brigas da família, mas mesmo assim sempre fui, eu não podia evitar.
Tudo começou depois que eu cheguei cansada de uma merda de aula de Educação Física. Eles estavam me esperando na sala, meu pai e Érica. Estavam com aquela cara de “vai ser ruim mas vai ser bom pra você”. Eu já não gostei. Respirei fundo e passei pela sala o mais rápido possível em direção a escada, mas como sempre não fui rápida o suficiente.
– Sarah? – chamou meu pai.
– A Sarah morreu em uma trágica aula de Educação Física. Deixe seu recado após o sinal. – falei com uma pontinha de ironia.
– Muito engraçado – ele ergueu uma sobrancelha – mas sente-se aqui.
– Claro, eu corri tanto na aula que acho que não tenho mais pernas. Mas como eu ainda tenho uma bunda, posso sentar.
Érica sorriu. Me sentei ao lado do meu pai.
– Fala pai.
Ele respirou fundo, porque sabia que eu iria tentar me suicidar me jogando do andar de cima.
– Você vai morar e estudar no exterior com a Roberta. – ele disse.Eu semicerrei os olhos, e disse: – Morar no exterior? Com a Roberta?
– Sim querida, vai ser bom pra você – disse Érica.Eu olhei fundo nos olhos deles, cruzei os braços em sinal de rebeldia e disse:
– Não. Prefiro ser atingida por um raio.
– Você vai. Não é maior de idade, eu ainda mando em você. – ele disse.
Silêncio. Então eu explodi.– Quer saber? Eu tenho certeza que se a mamãe estivesse aqui ela não iria me querer fora de casa! – eu disse, aos berros – você acha que sabe o que é melhor pra mim? Antes da Érica aparecer você era um solteiro estúpido que só comia comida enlatada e vivia por aí jogando pôquer e gastando todo nosso dinheiro. Eu já tenho noção das coisas e sei muito bem o que é melhor pra mim! – fui em direção a porta, mas Érica me conteve.
– Querida – disse Érica segurando o meu braço – não vá. Escute seu pai.
– Ah, me poupe. Aposto que foi você que colocou essa idéia na cabeça do meu pai. – falei amarga.
– Não querida! De jeito nenh... – ela tentou dizer, mas eu a interrompi.– Cala a boca, eu te odeio. Vai pro inferno! – eu gritei e saí batendo a porta.
Atravessei a rua correndo e ouvi Érica chamando o meu nome. Ouvi um som de freio, e depois um baque. Quando olhei pra trás, vi tudo embaçado. As pessoas gritavam e corriam de um lado pro outro, em direção ao caminhão.
Ai meu Deus, o que eu fiz.

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